sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

São Paulo

Creio ter sido João Ubaldo Ribeiro que, respondendo pela enésima vez sobre o porquê de escrever, disse: só escrevo sob encomenda. Bom, lembrei disso por que recentemente tenho escrito por que me pedem. E eu gosto disso. Muito.

Estou vivendo uma experiência nova. Já tinha ficado bastante tempo em lugares diferentes a trabalho, passeio e até com a intenção de morar. Mas nunca o tinha feito efetivamente. Independentemente dos motivos que me levaram a fazê-lo agora, um desafio interessante. Sempre que viajei procurei me misturar às cidades, tentando não parecer turista e com orgulho confesso que até me saí relativamente bem, à exceção de lugares onde meu tipo físico destoada sensivelmente da população local.

Descobrir um novo lugar, chamá-lo de seu “lar” não é exatamente uma tarefa fácil. Há pessoas – tenho uma grande amiga assim – capazes de ficar por anos a fio indo de um país a outro, apenas com malas, sem um ponto final, um porto seguro. Descobri que não saberia viver assim. Não agora que estou “mais velha” e cheia de manias.

Uma de minhas manias é conseguir tempo pra caminhar bastante, andar por ruas e avenidas. De ônibus, em carro, a pé, faço questão de prestar atenção a referências para localização e placas com nomes de ruas, enfim, tudo à minha volta. E fico meio pasma como as pessoas passam por prédios lindos, por calçadas desenhadas, por viadutos como o viaduto do Chá em São Paulo e não se dão conta da beleza daquilo. Talvez já tenham se acostumado ou talvez nunca tenham prestado atenção realmente. Esta semana, fui com um amigo de Porto Alegre ao centro de São Paulo e enquanto ele se surpreendia com minha desenvoltura entre as ruas eu ia mostrando, toda feliz, as belezas arquitetônicas de minha “nova casa”. Lembro da primeira vez que passei em frente ao Teatro Municipal ou da Pinacoteca. Fiquei muda – e pra mim isso é difícil – observando cada detalhe. Pensando na arte e na técnica de fazer aquilo. Comparada com cidades européias medievais são construções até simples, mas como não se maravilhar com a opressão sentida dentro da Catedral da Sé? Como a engenhosidade da arquitetura artística humana faz isso? Que bom que faz! Nos leva a pensar em nossa “pequenez”.

Lembro das pessoas reclamando da ‘falta do que fazer’ em Porto Alegre. Quando lá temos sempre muitos espetáculos de teatro, cinema, música, exposições, passeios que as pessoas não aproveitam. Um aniversário meu lá passei com os amigos e familiares fazendo um passeio em ônibus turístico, ouvindo informações que desconhecia do lugar onde nasci e vivi a maior parte da minha vida.

Imaginem então a imensa diversidade de um lugar como São Paulo. Uma “babilônia”. Não há como chegar a 454 anos incólume! Sentada num bar com uma baiana e um mineiro falamos de preconceito racial, artes plásticas. Pego jornais e vejo a imensidade de opções sobre o que fazer. Estão na minha lista alguns museus que, por estar num momento de busca de trabalho, provavelmente visitarei quando meus pais finalmente adentrarem a cidade, pra descobrirmos juntos este mundo. O Museu da Gramática particularmente me interessa. Mas há tantos que não sei quando conseguirei visitar todos.

Esta minha nova cidade sempre me agradou muito, mas hoje percebo que poderei adotar São Paulo sem problemas, se ela me quiser.

Quando alguém me pede uma sugestão de teatro, preciso, obrigatoriamente, consultar um guia de jornal ou site se desconheço totalmente o gosto da pessoa e dado o número enorme de alternativas. Às vezes simplesmente digo: vá até a Praça Roosevelt no centro e caminhe por todos os teatros e seguramente você vai encontrar algo que lhe agrade dentro de um horário compatível com sua agenda e preço muito, muito acessível. Em quantos lugares no Brasil é possível alguém ir a uma rua pra escolher o que vai assistir e ficar tomando alguma coisa antes e/ou depois nos bares dos próprios teatros com gente legal à sua volta?

Há momentos em que desço do ônibus, caminho por uma calçada toda desenhada com aquelas pedras pequeninhas das quais nunca lembro o nome, tipicamente portuguesas e vou, sem perceber, diminuindo o passo, feliz em ter olhos pra ver tudo aquilo. Calçadas, prédios. Entro num destes lindos e antigos prédios e lá dentro descubro uma exposição surpreendente de uma jovem artista, antenada com seu tempo e tão próximo dessa arquitetura ‘antiga’.

Isso é São Paulo, um emaranhado de pessoas de diferentes lugares, influências de terras longínquas, de vários cantos do mundo com seus trejeitos e hábitos. Que podem passar em um dos vários sebos – especialmente gosto de andar pela Pedroso de Morais – ou uma das grandes redes de livraria, ir até o vão do MASP na Avenida Paulista ler um pouco enquanto esperam pra entrar no museu e visitar alguma nova exposição ou ‘apenas’ apreciar a coleção que existe lá em acervo. Se for domingo, passear entre as barracas de antiguidades que ali se instalam ali ou na Praça Dona Orione, no Bixiga, se for sábado passar antes na feirinha da Benedito Calixto; algumas das várias feiras de artesanato e/ou antiguidades que se espalham pela cidade especialmente nos finais de semana. Depois atravessar a avenida e passear no parque Trianon antes de terminar o dia num dos democráticos botecos espalhados por ali. Nada como levar meu ‘chimas’ e um bom livro e sentar, conhecer pessoas novas, ouvir alguém dedilhar um violão e aos poucos formar um grupo interessante de bate-papo sem qualquer compromisso.