sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

TEATRO, ARTE URBANA

Urbano, relativo à cidade. Arte urbana seria aquela produzida na cidade, pela cidade, para a cidade? Grafite ou pichação depredatória? Teatro de rua ou bagunça na rua?
A história nos ensina que antes das primeiras palavras os humanóides usavam seus corpos pra se fazer entender. Gestos e primeiros sons orais foram incorporados para transmitir conhecimento e histórias. Contadores de histórias prendiam a atenção de sua platéia usando gestos grandiosos e aos poucos descobriam que brincar com gestos e vozes incrementavam isso. Naturalmente criou-se o teatro e aos poucos, como todas as áreas do conhecimento humano também dela e para ela surgiram pesquisas e experimentos que resultaram em formação acadêmica.
Pode-se dizer que esta arte, surgida como todas as outras, é essencialmente urbana pois pressupõe-se um agrupamento humano para a transmissão da informação através do movimento corporal e articulação de sons. Um artista plástico pode criar uma obra em completo isolamento, como um músico. Claro que há, e sempre haverá, discussões intermináveis de que isso só seria assim considerado se pelo menos uma pessoa a visse. Mas a obra está lá, indubitavelmente.
Já o teatro, por sua condição essencialmente efêmera, existe a partir do momento em que alguém o testemunha. Alguém poderá dizer que um grupo ou indivíduo pode fazer isso isoladamente, mas dizer que foi feito é diferente de mostrar. Ou seja, é necessário algum tipo de assistência, que comumente chamamos ‘platéia’. A partir disso, os centros urbanos tornam-se os locais mais adequados para o fazer teatral. Leve-se em consideração também que as artes cênicas precisam do suporte, trabalho e talento artístico de outros profissionais como músicos para as trilhas, cenógrafos e cenotécnicos para a ambientação, figurinistas, iluminadores, técnicos diversos. O grande grupo de pessoas envolvidas nesta atividade requer proximidade entre os componentes, requer que estejam no mesmo lugar e o mais próximo possível a equipamentos e materiais para que tudo seja construído; desde a mais ‘simples’ apresentação ao mais grandioso espetáculo.
Enquanto o ser humano procura cada vez mais facilidade através de tecnologias inovadoras, a arte procura em suas origens um ‘novo’ caminho. Grupos reconhecidos internacionalmente nos lembram que a simples técnica de usar corpos e vozes para cantar e encantar são ainda um eficaz instrumento de comunicação e entretenimento. Esta arte faz parte do nosso cotidiano desde o colega que conta uma boa piada à chance de ver um espetáculo grandiosamente produzido. A rua é a oportunidade principal para quem, em cidades, tem pouco tempo ou pouco interesse na arte. Mesmo sem procurarmos, quando o teatro vem até nós fazendo da rua seu palco é praticamente impossível não ficar momentaneamente seduzido pela sua magia. Impossível passar incólume, sem dar uma espiada, parar por alguns instantes ou assistir toda uma representação artística que tão gentilmente nos é oferecida.
Na capital gaúcha não é incomum vermos uma apresentação no principal ponto de encontro semanal no “Brique da Redenção” com a Cia Stravaganza di Teatro levando ao público a deliciosa linguagem da comédia dell’arte ou a Oigalê Cooperativa de Artistas que conta, com uma linguagem popular, lendas e causos do sul entre outras. Isso pra citar apenas dois dos grupos que utilizam a rua pra ir onde o povo está – trocadilho involuntário mais útil para caminho! Em São Paulo a Praça da República no centro da cidade (entre outros espaços espalhados pela metrópole) também oferece espaço cênico a trupes, companhias e grupos que com simplicidade arrancam sorrisos daqueles que passam e param, de alguns instantes a horas pra esquecer, por momentos, as agruras que os rodeiam. É inegável o poder da arte quando colocada à disposição do público, seja ele qual for.
Espalha-se pelo país o teatro, uma arte essencialmente urbana e o teatro de rua sua mais completa tradução. Aproveitemos!