sábado, 20 de setembro de 2008

O Museu da Língua

Talvez eu esteja interferindo na coluna alheia com o tema, mas é sempre oportuno falar de língua e linguagem enquanto questão de identidade cultural.

Uma das grandes vantagens de viver numa cidade como São Paulo é a possibilidade de sempre ter alguma boa surpresa. Ao contrário do que é difundido, o acesso à cultura é sim, muito barato e fácil. Um dos mais recentes exemplos é o ‘novo’ Museu da Língua Portuguesa. Localizado na recém reformada Estação (de trens) da Luz, encanta por fora – o prédio – e por dentro – o conteúdo. Aparentemente simples, o conteúdo apresentado é extremamente interessante. Nossa língua, nossa maneira de entendermos uns aos outros através das palavras. Como agora, enquanto escrevo e alguém lê.

O Museu é muito bem equipado e como todo museu moderno, dotado de recursos audiovisuais muito elucidativos. No primeiro andar há uma exposição temporária; no momento, é alusiva ao centenário de morte do escritor Machado de Assis, onde compreendemos como era sua formação, usos e costumes de sua época, o que influenciou sua literatura. Exposição muito interessante, que conta com fotos, objetos de época, fotografias, trechos lindamente ‘recortados’ de suas obras, um espelho que reflete imagens da esposa do escritor e não quem o observa. O ponto alto, parece, é a sala simples com telas de vídeo dentro da qual sentamos formando uma espécie de cinema 360°. Pessoas, simplesmente pessoas, lêem trechos da obra do escritor durante o trabalho. O policial negro que enfrenta a madrugada de trabalho num posto móvel no centro da cidade, lê sentado à janela do ‘trailer’, ou caminhando pela praça junto a crianças em situação de rua. O migrante nordestino, em sua função de zelar pela segurança na entrada de um prédio residencial, lê com cuidado pra não errar ou gaguejar, trechos de outra obra de Machado. As imagens de cada pessoa são apresentadas em momentos diferentes em telas diferentes, parecendo, às vezes, seus pensamentos... Fica-se girando no banquinho tentando não perder nada. Simples e tocante.

Subindo um andar, entramos no mote do Museu. Uma longa parede apresenta vídeos e nos conduz à parte onde se deve começar pelo fim; do fundo da sala começamos a compreender sobre a criação das línguas, suas raízes, seus cruzamentos, sua evolução. Em dado momento o enfoque começa a ser da Língua Portuguesa e percebe-se que caminhamos efetivamente pro nascimento da Língua Brasileira. Nesse momento vem à mente a questão da tentativa de unificação da Língua Portuguesa. Será mesmo viável? Será necessária? Até que ponto tentamos evitar o inevitável? Através de depoimentos explicativos e muito interessantes de estudiosos (em vídeos) compreende-se algo que, se tivéssemos parado pra pensar, já teria sido compreendido. Monitores interativos permitem que se veja a origem de palavras que usamos a todo instante originárias de línguas africanas de diferentes nações, vindas com imigrantes de várias nacionalidades e ‘aportuguesadas’ – ou deveria dizer ‘abrasileiradas’? Em outros monitores fixos, a palavra como a conhecemos, sua palavra de origem e o significado. Tudo dentro de uma linha de tempo. Tudo disposto de maneira fácil e alegre, bonita e convidativa. Outros recursos também instigam a conhecer mais o assunto. No terceiro andar, há uma grande sala de cinema ou auditório onde é apresentado um vídeo de 10 minutos que deixa vontade de quero mais sobre a criação da comunicação por palavras e de nosso ‘idioma’ e logo após, somos convidados a entrar atrás da tela, num enorme espaço onde são jogadas imagens nas paredes e teto, com palavras, vozes, músicas, poemas... Prosa e verso de todos os tempos e estilos, como um céu infinito de estrelas. Ao final, o chão fica coberto dessas palavras e as pessoas começam a caminhar entre e sobre elas, encantadas com as palavras comuns que a partir dali, adquiriram ‘novo significado’. A vontade é voltar outro dia, curtir de novo, pegar aquilo que foi perdido durante o tempo em que ficamos vidrados em algo e perdemos outro detalhe. Todo este arrebatamento pela nossa língua por módicos 4 reais pra adultos e gratuitamente a crianças e maiores de 60 anos.